quinta-feira, novembro 23, 2006

Prodigiosos das Teclinhas


...Me atentei que 'meus' pianistas em 2006 tiveram uma boa produção:


KEITH JARRETT


Começando pelo gênio "Keith Jarrett", Norte-Americano de 61 anos, que aos 9 tocava numa convenção no 'Madison Square Garden' e aos 20 já era membro de um dos mais considerados grupos de Jazz da época, 'The Charles Lloyd Quartet'. Entre 69 e 71 tocou com 'Miles Davis', dividindo a cena, no primeiro ano, com 'Chick Corea'. Depois partiu para uma carreira solo com volumosa produção discográfica pelo selo alemão 'ECM' (o mesmo do nosso 'Egberto Gismonti').

Seus concertos são marcados por longas digressões, improvisações, composições espontâneas, por notas subentendidas e pelos espaços silenciosos entre elas; aliado ao costume que 'Keith Jarrett' tem de murmurar, cantarolar, bater, se contorcer ao piano em cena, algo como faziam 'Glenn Gould' ou 'Thelonious Monk'. Só não quando ele executa repertório clássico.

A obra mais conhecida do músico é o famoso (e comovente) 'Koln Concert', de 1975, um marco no Jazz moderno e o disco 'piano-solo' mais vendido da história, ultrapassando os 4 milhões de cópias, projetando-o ainda mais para o mundo.

'Keith' se divide em carreira solo e a que mantém desde 1983 como trio, contando com 'Gary Peacock' no baixo e 'Jack De Johnette' na bateria. A última gravação do trio foi o álbum ao vivo 'Up For It', em 2002.

Em Abril deste ano foi lançado o DVD 'Tokyo Solo', gravado em 2002, no concerto de nº 150 no Japão, com o pianista apresentando peças que sairíam 3 anos mais tarde no álbum 'Radiance' (05). Há, ainda, duas emocionantes versões para 'Old Man River' e 'Danny Boy'.

E em Setembro, um ano após o concerto que marcou a volta solo aos palcos americanos, depois de uma década de ausência, saiu 'The Carnegie Hall Concert', álbum duplo, em que 'Keith' apresenta três novas peças, mais o standard 'Time On My Hands' e ressuscita, para entusiasmo da audiência, 'My Song', 77, de sua fase como 'Quarteto', e célebres companheiros, como o saxofonista 'Jan Garbarek'.

Não é de se estranhar que esse concerto toque fundo como 'Koln Concert' (75), 'Paris Concert' (88) ou 'Viena Concert' (91). Ele está no mesmo nível de apuramento e beleza.

Mas atenção se for assistir a um concerto de 'Keith Jarrett'. Faça silêncio e nem pense em levar gravador. Ele já fez ascender as luzes de um teatro no meio de uma execução para que um indivíduo desligasse o gravador e lhe pedisse desculpas. Mais recentemente, final de Outubro, em Paris, impaciente com tossidas na platéia, levantou-se e recusou a continuar a primeira parte do concerto.

Itália, 1974
Itália, 1974 (Parte 2)
Japão, 1984



BRAD MEHLDAU



Nascido na Flórida em 1970 (quando 'Keith Jarrett' ainda tocava com 'Miles Davis'), 'Brad Mehldau' iniciou-se como pianista clássico e aos 12 anos descobriu o Jazz com uma gravação ao vivo de 'John Coltrane'. Ele cita ainda como influências, 'Thelonious Monk', 'Charlie Parker' e... 'Keith Jarrett'. Ah, e o 'Bill Evans' que ele evita comparações.

Antes de formar seu próprio trio em 94, 'Brad' participou do Quarteto do saxofonista 'Joshua Redman', lançando 'Moodswing' e, em seguida, seu debut solo, 'Introducing B.M.'.

Com o Trio, formado pelo baixista 'Larry Grenadier' e o baterista 'Jorge Rossy' (substituído em 2005 por 'Jeff Ballard'), 'Brad Mehldau' toca suas composições, standards e tem enveredado cada vez mais na recriação de clássicos do Pop, Rock, com arranjos jazzísticos. Ainda que alguns 'puristas' não apreciem essa permuta entre estilos, suas interpretações para músicas do 'Radiohead' ('Exit Music', 'Paranoid Android', 'Everything in It's Right Place'); para 'Nick Drake' ('Riverman', 'Day Is Done', 'Things Behind The Sun); 'Beatles' ('Blackbird', 'Matha My Dear', 'She's Leaving Home'), mostram a ousadia e força inovadora de seu estilo. E isso só para citar os registrados em discos. 'Brad' tem executado em seus shows de 'Chico Buarque' ('O Que Será') a 'Soundgarden', 'Nirvana' e 'Hendrix'.

“O que mais me excita na música improvisada, seja tocando solo ou em trio, é o processo de assumir uma forma e abstraí-la, mas ficando sempre dentro dessa forma. Gosto de ter uma forma para pular fora, seguir em frente, mas poder sempre retornar a ela”. - Brad -


Dono de mais de uma dezena de discos, solo e trio; e de mais outra em participações, o ano de 2006 foi bem prolífico para o 'gigante precoce do Jazz'. De certa forma os três álbuns lançados este ano pelo pianista afasta a hipótese, largamente difundida, de que 'Brad' estaria se tornando um pianista mais acessível (como se isso fosse ponto negativo na estrada de alguém). Talvez se deva pela turnê de 2004, solo, suave, gerando o emocionante 'Live In Tokyo', com versões arrebatadoras e inspiradas para 'Riverman' e 'Paranoid Android'.

Ou ainda com o lançamento em 2005 de 'Day Is Done', em que ele e parceiros 'refazem' a canção título, dádiva de 'Nick Drake'. Transformam 'She's Leaving Home' numa triste valsa e deixam quase irreconhecíveis 'Martha My Dear', aquela que Sir 'McCartney' fez pra sua cadela (bicho!), e '50 Ways To Leave Your Love' de 'Paul Simon'.

Fato é que, neste 2006, 'Brad' lançou um álbum em parceria com a soprano Norte-americana 'Renée Fleming' interpretando poemas de 'Rilke' (o que ele já esboçara no álbum 'Elegiac Cycle' de 99), 'Love Sublime'.

Lançou em Junho/06, 'House On Hill', o canto do cisne da fase 'Art Trio' - 1994-2004, meio que um tributo ao baterista 'Jorge Rossy'.

E surpreende neste fim de ano lançando um delicado trabalho ao lado do guitarrista 'Pat Metheny'. 'Metheny-Mehldau' começa com a melancólica 'Unrequited', uma das três composições que 'Brad' contribuiu no álbum. Excetuando duas já gravadas por 'Metheny', o restante é composto por suas novas canções. O 'Art Trio' de 'Brad' participa em duas faixas, 'Ring Of Life' e na latina 'Say The Brother's Name'. A última do disco é a idílica 'Make Peace' com cada músico se completando perfeitamente, como se, outrora, já trabalhassem juntos.

Exit Music, 2001
Exit Music


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Há ainda uma nova safra de gênios precoces das teclinhas: O californiano, de 21 anos, 'Taylor Eigsti', que aos 12 tocou com 'Dave Brubeck' e aos 14 anos lançou seu primeiro CD. E o menino prodígio russo, 'Eldar Djangirov', 19 anos, que recentemente lançou seu segundo disco 'Live At The Blue Note e é sempre comparado ao 'Art Tatum' pela velocidade, e a 'Oscar Peterson' pela suavidade.


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WIM MERTENS



Mas eu quero fugir um pouco do Jazz para falar de um outro pianista, mais voltado ao erudito e a experimentações, o belga 'Wim Mertens'.

Ao lado de 'Philip Glass', 'Michael Nyman' e 'Steve Reich', 'Wim' se coloca como um músico muito mais abrangente, indo além da música minimalista, flertando com o Pop e tendo uma sadia mancebia com a música clássica.

Iniciou carreira no início dos anos 80 produzindo shows e programas numa Rádio da Bélgica. Com o nome de 'Soft Verdict' lançou, em 82, seu debut 'For Amusement Only', uma peça eletrônica experimental, assim como seriam suas próximas obras até 1985.

Completamente dono de sua obra, não é raro 'Wim' encabeçar projetos ousados como em 91 lançando 7 cds ao mesmo tempo, 'Alle Dinghe'. E três anos em seguida despejar mais 10 cds de uma vez, 'Gave Van Niets'. Facilidades que seu selo 'Les Disques Du Crepuscule' consegue suprir.

'Wim Mertens' compõe obras em diferentes formatos, desde canções curtas, peças para câmara, teatro, filmes... É dele a trilha de 'The Belly Of An Architect', de 'Peter Greenaway'. E também de dois filmes brasileiros dirigidos por 'Marcelo Masagão', '1,99 - Um supermercado que vende palavras' e 'Nós que aqui estamos por vós esperamos'. 'Wim' se apresentou uma única vez no Brasil, em Março de 2004.

Com o álbum de 85, 'Maximizing The Audience', sua música ganha a ilustração de vozes. E em 1986, com o lançamento do álbum 'A Man Of No Fortune And With A Name To Come', inicia um trabalho de rara beleza com peças para piano e voz, lançando desde então, 7 trabalhos primorosos nesse formato. A voz de 'Wim', angelical, potente, única, é um instrumento repleto de emoção que dialoga delicadamente com o piano.

Os outros álbuns Piano/Voz são:

After Virtue (88)
Strategie De La Rupture (91)
Epic That Never Was (94)
Jeremiades (95)
Der Heisse Brei (00)

e 'Un Respiro', lançado ano passado em comemoração aos 25 anos de carreira do artista. Um dos discos mais belos de 2005, contendo 10 canções compostas para dois pianos e duas vozes, todas executadas pelo próprio, que afirma ser a voz um guia para o piano.

Todos esses 7 trabalhos do 'Wim' são excepcionais, ainda que 'Strategie de La Rupture' me cative mais. Talvez por ter sido com ele, numa primavera de 96, que se deu o início dessa minha paixão. E ele me arrebata a cada nova audição, sem piedade. Mas 'Jeremiades', o álbum que trata das lamentações do Profeta Jeremias chorando a destruição de Jerusalém, com suas 6 peças, todas com títulos em hebreu, é de uma elevação quase divina.

Em 50 discos gravados nesses 25 anos de carreira, há um que difere do
restante, 'Sin Enbargo', lançado em 97, quando 'Wim' deixou de lado piano,voz, orquestra, para gravar um álbum de violão clássico, instrumento que o músico toca magnificamente desde os 8 anos de idade


Ainda nas comemorações de 'Bodas de Prata', lançou em 2006 o álbum 'Partes Extra Partes', uma releitura de algumas de suas obras mais significantes com acompanhamento de Orquestra.

E colocou essa semana no mercado, seu primeiro DVD, 'What Your See Is What You Hear',gravado em Roma e Antuérpia, em Setembro/05.

Pra encerrar, 'Wim' está iniciando uma tour por Portugal no dia 1º/Dezembro até o dia 10.

2 Comments:

em 10:44 AM, março 23, 2008, Blogger Tico disse

"Aluado", onde encontro material de Wim Mertens para baixar? Identifiquei apenas um blog até agora, o qual disponibilizou duas obras do artista.

obrigado.

 
em 12:13 PM, março 23, 2008, Blogger Denis disse

Tico, alguns eu consegui em cd mesmo, outros baixei do 'Soul Seek'. Caso se interesse, entre em contato comigo que posso disponibilizá-los para você, de algum modo: Denisdeoli@hotmail.com

abraço,

d

 

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